quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Personalidade Gandhi


*Por Christine Jordis


No começo do século XX, o imperialismo britânico prossegue em sua maior vitalidade. A Índia, segundo Nehru – um líder nacionalista, é verdade -, está enterrada num “lamaçal de pobreza e derrotismo que a arrasta para o fundo”; durante gerações ela ofereceu “seu sangue, seu labor, suas lágrimas, seu suor”, e esse processo consumiu seu corpo e sua alma, envenenou todos os aspectos de sua vida coletiva, como uma doença fatal que rói os tecidos e mata em fogo lento.
Veio Gandhi.

“Foi como uma poderosa lufada de ar fresco a nos dilatar... um feixe de luz que perfurava a obscuridade; como um turbilhão que agitou muitas coisas, sobretudo o modo de funcionar de nosso espírito. Ele não vinha do alto; parecia surgir das multidões da Índia, falava a linguagem delas e chamou constantemente a atenção para elas, para sua terrível condição. (J. Nehru, La Découverte de l’Inde, Philippe Picquier, 2002)

A aparência dessa figura que ia mudar o destino de um país era totalmente insignificante. “Um homenzinho de físico miserável”, mas com a força do aço ou da rocha. “A despeito de seus traços humildes, de sua tanga e de sua nudez, havia nele algo de um rei que impunha a obediência... Seus olhos calmos e graves nos mantinham sob seu olhar, nos sondavam até o mais profundo da alma; sua voz, clara e límpida, penetrava, insinuava-se até o coração e remexia as entranhas... O charme e o magnetismo passavam...”. Com ele, cada um tinha o “sentimento de comunhão”. De onde vinha esse “feitiço”? Não da razão, certamente, embora o apelo à razão não fosse ignorado; tampouco da arte oratória nem do hipnotismo das frases: elas eram simples e econômicas, sem uma palavra supérflua. “Era a absoluta sinceridade do homem e de sua personalidade que nos dominava; ele dava a impressão de possuir imensas reservas de força interior”.

Ainda em vida, porém, Gandhi chegou a ser muito criticado. Alguns rechaçavam a idéia de chefe, de santo ou de herói, preferindo ver nele um homem comum que obedecia a motivações comuns (interesse pessoal, defesa de seu poder, vaidade: “a consciência de si enquanto velho humilde e nu, sentado sobre seu tapete de oração e fazendo tremer os impérios pela simples força de seu poder espiritual”) –em suma, sob a grande figura, um personagem calculista, manipulador, apaixonado por seu prestígio e finalmente vencido (era como o viam, na época, muitos britânicos, seus inimigos). Outros achavam irritantes ou mesmo inaceitáveis sua abordagem emocional de problemas econômicos ou sociais e sua insistência numa religião (na verdade uma ética) que não admitia misturar seus princípios e sua linguagem aos da política- disciplina que exige a razão, enquanto Gandhi agia pela “magia” e buscava captar a imaginação do povo para melhor dirigi-lo. Colocava-se o problema da ligação entre espiritualidade e política. Uma relação que causava dores, incompreensão, abalos: “Para que tentar mudar a ordem existente?”, escrevia Nehru, que foi seu discípulo e amigo. “Não, bastava mudar o coração dos homens ! É a chamada atitude religiosa, em toda a sua pureza, frente à vida e a seus problemas. Uma atitude que nada tem a ver com a política, a economia ou a sociologia. No entanto Deus sabe quanto, no domínio político, Gandhi podia ir longe!” . Se ele tinha realmente objetivos tão elevados, por que, diziam seus críticos, comprometê-los entrando na vida política que, por natureza, como todos sabem, situa-se longe da busca da verdade? Enfim, não se podia compreender essa mistura paradoxal de “santo católico medieval” e de “chefe político com espírito prático”.

No mínimo o homem era suspeito; sob a figura do asceta, não se podia duvidar que se escondia um indivíduo astuto, competente, hábil nos rodeios – capaz de encontrar um acordo entre os extremos, entre as classes e os partidos, capaz de rigidez na teoria, mas também de flexibilidade nas aplicações, suscetível de mudar de opinião de forma radical, sem pensar na coerência com suas afirmações anteriores; em suma, um homem “extremamente complexo, uma mistura de grandeza e de pequenez, uma grande personalidade política, excessivamente política, e que punha essa marcha em suas concepções morais e religiosas”, era como o via “o Poeta”, isto é, Rabindranath Tagore, em 1926, antes de aliar-se totalmente a Gandhi; e Tagore insistirá nos compromissos aceitos, nessa “espécie de má-fé secreta que o faz provar por raciocínios sofisticados que o partido que ele aceita é o da virtude e da lei divina, mesmo que seja o contrário e que ele não possa ignorar isso”. Assim, um político e não um santo, e tanto mais astuto, tanto mais indecifrável quanto não cessa de confessar publicamente suas dúvidas, suas hesitações, seus erros e reorientações, trabalhando na maior “transparência”, diríamos hoje. A moralidade, o amor, o vocabulário religioso seriam então uma pose, um abuso de belas palavras e sentimentos destinados a arrastar as multidões e impressionar o inimigo?

Questões que não arranhavam a confiança da Índia em sua sinceridade. A despeito de seu vocabulário, “de uma obscuridade quase total para o homem médio de nosso tempo”, dizia Nehru, a despeito de suas meias-voltas desconcertantes, os amigos tinham-no por “um grande homem, um homem único, a quem não se podia aplicar nem as escalas de valores correntes nem os padrões de lógica habitual”. Tendo depositado nele a sua fé, os amigos o acompanhavam. Nenhum deles, ao contrário dos que falavam “uma linguagem diferente” – espíritos inimigos de seu pensamento ou, mais simplesmente, mal equipados para compreendê-lo – nunca lhe supôs mentira ou impostura: “Para milhões de indianos, ele é a encarnação da verdade, e todos os que o conhecem sabem a seriedade apaixonada com que busca agir de forma justa”. Aplicar a essa personalidade extraordinária os raciocínios banais, as frases deformadas, as teorias prontas que se utilizam para o político médio é ficar na crítica superficial, sublinha Nehru, e ele próprio busca em vários momentos definir Gandhi, passando da afeição à cólera, da surpresa à admiração, corrigindo constantemente um retrato que seu modelo não cessa de modificar.


Extraído do prefácio da biografia de Gandhi, de Christine Jordis


*Escritora, crítica e editora, Christine Jordis se ocupa do romance inglês nas Éditions Gallimard e colabora no jornal Le Monde. Seu primeiro ensaio, De petits enfers varies, recebeu o prêmio Médicis em 1999, e Une passion excentrique, seu último livro, o prêmio Valéry Larbaud em 2005. Muito interessada pela Ásia, para onde frequentemente viajou, também publicou Bali, Java, em rêvant e Promenades em terre boudhiste, Birmanie.

Imagem: foto de Christine Jordis

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